quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Massacre de Jonestown

Jim Jones

They're looking for Jesus… They're looking for Christ
They're looking for some human sacrifice
(Trecho da música “Jonestown” - Concrete Blonde)

18 de Novembro de 1978, quase mil membros (algumas fontes dizem que foram 909, outras dizem que foram 918) do Tempo do Povo sucumbiram ao suicídio por envenenamento no local onde eles acreditavam ser a “terra prometida”, Jonestown.

É considerado o maior suicídio em massa da história, conduzido pelo líder religioso, e fundado do Templo do Povo, Jim Jones.

Jim Jones

Jim Jones

James Warren "Jim" Jones nasceu no dia 13 de Maio de 1931 no interior do estado de Indiana (EUA). As pessoas dessa cidade viviam graças a uma indústria próspera de construção de caixões. Jones viveu na época da grande depressão causada pela crise de 1929, o que obrigou sua família a viver perto de Lynn, em 1934.

Jim Jones é o quinto na fileira de trás, a partir da direita

Lynn High School - 1948. Jim Jones é o terceiro na fileira de trás

Filho de um veterano da Primeira Guerra que voltou à cidade de Lynn para se tornar um alcoólatra desempregado, Jim Jones considerava o pai um velho inútil, um maldito racista. Quando seus pais se separaram, a mãe de Jim Jones se mudou, com os filhos, para Richmond, ainda em Indiana, onde ele concluiu os estudos.  Após a morte de seu pai, Jim Jones descobriu que ele era um membro ativo do Ku Klux Klan.

Pai e Avô de Jim Jones

Quanto à mãe de Jim Jones, Lynetta Jones, essa sustentava a família sozinha e escandalizava os vizinhos ao usar calças cumpridas e fumar na rua. Ela dizia que em uma vida passada havia viajado por todo o mundo, fez uma assinatura da revista National Geographic e contava a seu filho suas aventuras com as Amazonas caçadoras de cabeça, histórias mágicas e sobre transmutação da alma, inundando os sonhos da criança antes de dormir. Ela acreditava que os sonhos eram um prenúncio da vida após a morte e dizia ao filho que ele estava destinado a ajudar os pobres.

Jim Jones

Jim Jones, menino religioso, interessado em livros políticos e sociais, era vistos pelas pessoas como um menino sensível e que gostava bastante dos animais. Também demonstrou simpatia pelo marxismo e pelas reivindicações dos afro-americanos contra a segregação e a discriminação racial, sintetizadas então na militância do ator Paul Robeson, e na candidatura progressista de Henry A. Wallace à presidência dos Estados Unidos, em 1948. 

Sua visão sempre foi de um mundo onde os negros e brancos fossem tratados de maneira igual. Via nos pastores uma figura paterna que tinha poder sobre a vida e, então, aos 12 anos ele começou a pregar. Suas pregações sempre mencionavam a maldição do inferno e suas chamas devoradoras, era um tanto obcecado pela morte.


Num piscar de olhos, Jim Jones ganhou sua reputação como um curador de animais e começou a realizar funerais para gatos mortos. Em certa ocasião, viram Jim Jones matando um gato com uma faca ao qual ele realizou o funeral. Os vizinhos de Jim Jones começaram a perder os gatos e então começaram a especular que ele estava usando os animais para fazer certos sacrifícios.



Em 1949, Jim Jones se casou com Marceline Baldwin, uma enfermeira, e em 1951 finalmente mudou-se para Indianápolis. Ele se matriculou na Universidade de Indianópolis em Bloomington para estudar medicina, mas depois de um ano mudou de ideia e deixou o curso para se tornar um pastor de almas. Jim Jones aprendeu a ser pastor e tentou entrar para igreja. A congregação era principalmente de membros brancos que se opunham ao grande número de negros que seguiam Jim Jones e que por ele eram tão defendidos. Além disso, eles não gostavam da forma como Jim Jones pregava, violento e selvagem e ele acabou sendo expulso... Decanos da congregação fecharam a igreja e então ele resolveu criar a sua própria.


Esposa de Jim Jones

Jim Jones aprovou a invasão do sul da península pelo líder comunista Kim Il-Sung e então, em 1953, aos 22 anos, tornou-se membro do Partido Comunista, rompendo com eles quando o partido fez críticas aos excessos de Stalin. Nesse mesmo ano, concebeu a ideia de “morte revolucionária”, precisamente após a morte de dois supostos espiões. Para Jim Jones, essas mortes significavam que os EUA já não eram mais a “ultima esperança da humanidade”. Nessa mesma época, sem financiamento e sem ter sido ordenado sacerdote, Jim Jones finalmente fundou a Igreja Comunidade Nacional em um bairro do subúrbio de Indianópolis. Ele manteve a sua igreja com a venda e importação de macacos, US$29 cada.


 

Jim Jones considerava-se um socialista e também começou a buscar uma expressão desta dentro da religião. Quanto mais pobres e negligenciados eram os seus seguidores, mais ele se esforçava por eles. Um de seus primeiros paroquianos declarou que ele tinha muitos seguidores desse tipo que as pessoas normalmente não queriam saber, senhoras feias e sem família ou amigos, a quem ele sempre mimava e beijava como se realmente as quisessem, “e nos olhares de seus rostos você poderia ver o que ele realmente significava pra eles”.



Dessa forma, Jim Jones conseguiu arrecadar 50 mil dólares que foram usados para reformar uma antiga sinagoga e fundar uma das primeiras congregações multirraciais dos EUA. Aquela seria a primeira Igreja Evangélica Integral do Tempo do Povo, que teve como denominação definitiva, somente em 1959, o nome de “Peoples Temple Christian Church” (Templo do Povo) e isso atraiu a atenção de grupos radicais.

Ele foi apelidado de “O Amante Negro” e, diversas vezes, encontrava gatos mortos que as pessoas que não gostavam dele jogavam em sua igreja, janelas eram apedrejadas e bombas explodiam no pátio. Os integrantes do templo eram constantemente ameaçados e acredita-se que o próprio Jim Jones tenha manipulado algumas dessas reações em favor de sua pregação político-religiosa.

Quanto mais dificuldades ele passava, mais ele se empenhava e mais tinha vontade de seguir em frente com a sua missão. Ainda em 1954, Jim Jones e Marceline adotaram uma nativa americana de 11 anos. Nos anos seguintes eles adotaram três órfãos da guerra coreana, uma criança branca e um afro-americano, sendo o primeiro casal branco a adotar uma criança negra no estado de Indiana. Jim Jones e Marceline tiveram um único filho biológico, Stephen Gandhi Jones. A família de Jim Jones foi então apelidada de “A família Arco-Íris”.

Com o sucesso de seu Templo em Indianópolis, Jim Jones viajou para Cuba em 1959 em uma tentativa fracassada de levar afro-cubanos para Indianópolis. Em 1960, Jim Jones acredita ter tido a visão de uma explosão nuclear resultado da revolução fascista e guerra contra os negros nos EUA, então se mudou com sua família para o Brasil, Belo Horizonte, onde ficou durante um ano e fracassou na tentativa de estabelecer um novo local para o Tempo do Povo.

A necessidade de resolver conflitos internos na igreja em Indiana forçou Jim Jones a retornar aos EUA. Sua postura antirracista proporcionou sua participação na Comissão Municipal Contra Racismo, ganhando, inclusive, o prêmio “Martin Luther King”. Nessa mesma época, Jim Jones fez várias peregrinações pela Missão de Paz, onde obteve muito sucesso com os pobres urbanos em todo o país, e aprendeu truques fundamentais para sua carreira.


Jim Jones recebendo o Premio Martin Luther King

A chave para o sucesso foi insistir incessantemente em sua própria divindade e fazer demonstrações extravagantes do poder da fé, ele dizia: “Se me vir como teu amigo, serei teu amigo. Se me vir como teu salvador, serei teu salvador. Se me vir como teu pai, serei teu pai e se me vir como teu Deus, serei teu Deus.”.


Jim Jones Pregando

Jim Jones organizava sessões de milagres que o fazia vomitar fígado de galinha em seus seguidos, ao qual ele dizia que era um câncer maligno, algumas vezes curava idosos paralíticos, mas eram na verdade pessoas perfeitamente saudáveis e muitas vezes impressionava com seus extraordinários poderes de ler a mente.

Nos EUA, a luta pela igualdade entre negros e brancos não era uma questão de poucos e Jim Jones decidiu que iria tirar as pessoas de Indianópolis, por ser um lugar demasiadamente racista, onde ele era odiado por muitos por simplesmente querer misturar as raças. Ele estava convencido de que deveria levar a sua comunidade para a terra prometida.

Jim Jones havia lido um artigo onde dizia que Ukiah estava entre os nove lugares que sobreviveriam a um ataque nuclear, então, em 1965, decidiu transferir a comunidade do Templo do Povo para Ukiah, no norte da Califórnia. Alguns não o seguiram, mas o que o fizeram foram obrigados a vender e doar todos os bens para o Templo. Na ocasião, uma seguidora foi alertada da loucura que seria largar tudo e seguir Jim Jones para a Califórnia, então Jim Jones levou a seguidora a uma consulta com o psiquiatra para provar que ela não era maluca.


Primeiro Templo do Povo na Califórnia

A sede do Templo do Povo se enraizou em San Francisco, onde todas as reuniões eram sediadas. O movimento se expandia no país através de caravanas, distribuição de folhetos especialmente entre viciados em drogas e sem-teto, concentrações em grandes cidades e reuniões de testemunho. Em seu auge, o Templo do Povo reuniu cerca de 3 mil membros, dos quais a maior parte era composta por afro-americanos pobres.


O Templo do Povo

As finanças do movimento provinham de doações de seus membros ou de pessoas influentes. Objetos pessoais de Jones e amuletos eram também vendidos e o Templo chegou a ter uma estação de rádio e sua própria gravadora de discos. Jim Jones abriu refeitórios e creches e logo se apropriou de um poder que poderia ser usado para cunho político. Os milhares de membros da sua congregação eram um trunfo na eleição.

Como recompensa, Jim Jones foi nomeado Presidente da Agência de Construção Publica, por oferecer seus poderes políticos a George Moscone, candidato liberal eleito em 1975 como prefeito de San Francisco por forte influencia de Jim Jones e do Templo do Povo.  Usando sua influência e as várias amizades políticas que havia conquistado, Jim Jones obteve um tratamento preferencial para a sua congregação nas agências da Previdência Social, em relação a autorização nos tribunais, para planejamento urbano e construção de moradias.

Jim Jones, Dr. AE Ubalde, Jr. e o prefeito George Moscone
 

Jim Jones estava ficando cada vez mais paranoico, acreditava que seu templo estava ameaçado, que o governo não queria que ele fizesse o que fazia. Achava que o governo estava se infiltrando, gravando conversas e tentando matar as pessoas. Tinha medo de que alguém pudesse matá-lo a qualquer momento. A suspeita é de que seu comportamento começou a mudar porque estava fazendo uso de drogas que o deixavam cada vez mais paranoico.

Houve um incêndio no Tempo de San Francisco que queimou todo o edifício fazendo com que ele necessitasse ser reconstruído. O incêndio funcionou como a prova de todas as paranoias de Jim Jones, como se alguém estivesse ali para apanhá-los (ele e seus membros) e, então, queimaram o Templo, pois fariam qualquer coisa para acabar com aquilo que eles vinham fazendo. Jim Jones dizia que eles deveriam permanecer ainda mais fortes em seus propósitos e o incêndio funcionou como uma forma de fortalecê-lo e fortalecer a seu templo. Jim Jones dizia: “É dever da igreja ter um local para a proteção de seu povo!”.

Jim Jones comprou 1500 hectares da floresta tropical de Guiana, com o propósito de manter seus seguidores livres da perseguição, opressão e racismo dos EUA. Em Dezembro de 1975, Jim Jones enviou, de avião, os 90 primeiros membros para verem onde eles viveriam. 


Localização de Jonestown

Há 480 km no interior da selva, uma cidade estava sendo construída, que seria batizada com seu próprio nome, Jonestown. Em pouco tempo já havia vídeos com gravações da comunidade e dessas primeiras pessoas que foram pra lá. Essas pessoas foram completamente isoladas e não era permitido a elas manter contato com os parentes que ficaram para trás.


Jonestown 
Jonestown: Vista aérea
 
Jonestown: Vista aérea

As reuniões no Templo do Povo se tornavam cada vez mais opressoras e as pessoas eram espancadas como forma de penitência por algo de errado que tenham feito. Em algumas ocasiões Jim Jones era tão agressivo, que o membro chegava a desfalecer, sendo acordado para apanhar um pouco mais. Se alguém desejasse deixar o grupo, era denunciado por algum outro membro e castigado. Jim Jones dizia: “O que acham que devemos fazer com ele? Acham que podemos dar uma surra?” e os membros afirmavam calorosamente. As pessoas se sentiam envolvidas ao ponto de acreditarem que não havia mais saída.


Jim Jones

Em certa ocasião, um membro escreveu uma carta de amor para Jim Jones, que ele tratou de compartilhar com os membros de seu templo. Houve-se uma especulação de que a mulher nada teria a oferecer para Jim Jones e foi ridicularizada quando ele ordenou que ela ficasse nua e que os membros fizessem comentários sobre todas as partes de seu corpo completamente exposto. Podia-se notar satisfação por parte de Jim Jones em humilhar a mulher.

Na Califórnia, Jim Jones conheceu um jovem advogado ambicioso chamado Tim Stoen, que tinha acabado de se casar e procurava um revolucionário para realizar o seu trabalho. A congregação multirracial e a filosofia cristã-marxista de Jim Jones parecia ser a tendência dominante do futuro e a influência dele poderia garantir a Tim Stoen a posição de Assistente de Procuradoria Distrital de San Francisco, mas o preço seria sua esposa.

Tim Stoen teve um filho chamado John-John ao qual estava registrado em certidão de nascimento como sendo seu filho, porém soube-se mais tarde que ele havia pedido a Jim Jones que procriasse com sua esposa na esperança de que a criança se tornasse seguidora devota dos ensinamento de Jesus Cristo acima de tudo, sendo o instrumento principal para a criação do Reino de Deus na terra, como tem buscado seu pai natural (Jim Jones) maravilhoso.

A partir daí, Jim Jones usou o sexo como uma forma de exercer poder sobre e enfraquecer as relações cônjuges, conseguindo amarrar mais firmemente as pessoas ao templo. As meninas fiéis, com quem ele teve, pelo menos, três filhos, consideravam uma grande honra atender as suas necessidades sexuais. As relações sexuais não eram permitidas com estranhos e qualquer contato sexual entre os membros da congregação deveriam ser previamente autorizados por Jim Jones.


Jim Jones

Em certa ocasião um casal (os Mertle), membros de um grupo de confiança de Jim Jones, resolveu deixar o Templo por estarem cada vez mais preocupados com o comportamento estranho de seu lider. Jim Jones argumentou de várias formas para mudar a ideia desses membros, porém não obteve sucesso e dessa forma ameaçou manchar a reputação do homem acusando-o de assedio de menores. Eles disseram que falariam com a imprensa e assim foram embora, mudando de nome para não serem mais incomodados por Jim Jones.

Alguns amigos influentes de Jim Jones garantiram que o casal não desfrutaria de créditos suficientes caso decidissem falar com os jornalistas ou com a polícia, porém a paranoia de Jim Jones era tamanha a ponto de fazê-lo acreditar piamente que estava sendo perseguido por agentes do FBI disfarçados e que seus telefones estavam todos grampeados.

Nessa época, Jim Jones começou a implantar suas ideias suicidas e a realizar ensaios de um suicídio coletivo. Na primeira ocasião, Jim Jones ofereceu vinho a todos os membros de seu Templo. As pessoas não bebiam, mas beberam naquela ocasião e, depois que todos haviam se servido, Jim Jones anunciou que eles foram envenenados. As pessoas não podiam acreditar que aquilo realmente estava acontecendo, elas ficaram confusas e não entendiam porque Jim Jones faria aquilo. Alguns minutos depois ele desmentiu a história sobre o veneno e disse que aquilo fazia parte de um teste, para provar a fé que seus fiéis tinham nele.

Em outra ocasião, Jim Jones, em uma tremenda pregação, convenceu as pessoas presentes na congregação de que só havia uma forma de demonstrar a devoção que eles tinham a ele e então os forçou a tomar um copo de um líquido que ele disse conter veneno. As pessoas ficaram histéricas, muitas quiseram fugir, mas foram capturadas. Alguns participantes beberam o líquido sem muita hesitação, e então todos os participantes foram forçados a beber o suposto veneno. Minutos depois, Jim Jones esclareceu que o líquido era inofensivo e todos agradeceram a prova pela qual haviam sofrido.

E assim começaram os treinos de suicídio em massa, noites que Jim Jones costumava chamar de “Noite Branca”, onde todos acreditavam tomar suco de uva com veneno real sem ter a certeza de que havia mesmo veneno. Com o passar do tempo eles acabaram se acostumando com a ideia de homenagear ao “pai” oferecendo a própria vida.

Em 1977 Jim Jones foi convidado para palestrar sobre suicídio, quando teve a necessidade de mudar de moradia para que os organizadores antissuicidas construíssem ao longo da Golden Gate Bridge, um dos lugares favoritos para os suicidas que frequentemente se atiravam para o vazio. Jim Jones começou o discurso desaprovando a ideia de suicídio e terminou apoiando abertamente algo que chamou de “suicídio revolucionário”. Seus seguidores seriam os únicos com direito ao suicídio, mas ele ficaria vivo para explicar as razões para o suicídio em massa.


Jim Jones

Os membros do Templo do Povo não davam graças a Deus, mas sim a Jim Jones, que deixou de acreditar no conceito do cristianismo com o passar do tempo e, durante um de seus sermões, jogou pra longe a bíblia de maneira brusca. Houve um silêncio, o barulho do livro estatelando no chão e Jim Jones ironizando o fato de não ter caído nenhum raio na cabeça dele pelo que havia acabado de fazer.


"Eu creio em Jim Jones"

Um tempo depois, a esposa de Tim Stoen fugiu do Templo do Povo, enquanto ele continuou trabalhando para Jim Jones como seu assessor jurídico.  Vários jornais começaram a publicar artigos criticando o Templo do Povo, então nessa mesma época a Revista New West resolveu fazer um artigo sobre Jim Stone e seu Templo. Ao tomar conhecimento desse artigo, os Mertles entraram em contato com o jornalista e denunciaram todo o abuso físico e sexual que tinham testemunhado. Além dos Mertles, alguns ex-membros também entraram em contato com a redação da revista para contar o que testemunharam no Templo do Povo.

Jim Jones tomou conhecimento do artigo e convenceu o redator a ter acesso ao material antes que fosse publicado. Tomando conhecimento de que o artigo o atacava fortemente e trazia evidencia de extorsão e apropriação indébita, Jim Jones decidiu que estava na hora de deixar aquele lugar e ir para Jonestown, já que não como evitar que aquela publicação fosse feita e nem ignorar que seu efeito seria devastador. Jim Jones foi para Guiana seis horas antes de o artigo ser publicado.


Indo para Jonestown

Cerca de quatrocentas pessoas deixaram suas casas e família às pressas, sem dar explicações, para seguir Jim Jones e embarcar em um avião para Jonestown. Assim como os primeiros habitantes de Jonestown, essas pessoas foram isoladas e não podiam fazer nenhum tipo de contato com as pessoas deixadas para trás. Todo o tipo de trabalho feito em Jonestown era feito pelos próprios membros e eles inclusive plantavam aquilo que comiam.

Grace, ex-esposa de Jim Stoen e mãe de John-John, havia entrado com um pedido judicial para recuperar seu filho que estava em posse de Jim Jones, porém ele estava determinado a manter a criança em Jonestown já que ele havia nascido parar herdar a “Terra Prometida”. Grace venceu a causa e o juiz denominou que a criança fosse devolvida a sua mãe, mas ninguém se atreveu a cumprir essa ordem. Algum tempo depois Jim Stoen resolveu abandonar o Templo e se reconciliar com sua mulher para juntos recuperarem o filho.

Não demorou muito para que outras pessoas quisessem fazer parte de Jonestown. Muitos membros haviam adotado crianças abandonadas nos EUA e foram todos juntos, cerca de setecentos adultos e cento e cinquenta crianças, construir uma nova vida na Terra Prometida, onde o preço da entrada era a doação de todos os seus pertences e bens para o Templo.

Em Jonestown havia somente um único sistema de som ao qual somente Jim Jones tinha acesso, onde ele deixava uma gravação de si próprio rodando durante 24 horas inteiras, que podia ser ouvida de qualquer lugar onde qualquer um estivesse naquela cidade. Não havia estação de rádio, televisão, nem qualquer outro tipo de informação ou comunicação além dessa.

Jim Jones impunha regras e disciplinas severas, os relacionamentos amorosos foram proibidos e decretou três meses do celibato estrito para cada casal que tivesse intenções de formar um lar estável onde o único isento era ele próprio, que vivia em uma cabana com duas de suas amantes, próximo ao barraco onde ficava sua esposa.  Jim Jones ficou furioso quando soube que uma adolescente teve um caso amoroso com um marinheiro a caminho de Jonestown e, como forma de punição, despiu os dois na quadra de basquete de Jonestown e ordenou que um negro enorme estuprasse e sodomizasse os dois na frente de todos os fiéis.


Cabana de Jim Jones

Em outra situação, uma jovem que resistiu aos avanços de Jim Jones foi levada ao hospital de Jonestown, drogada e transportada noite após noite aos aposentos dele. Aqueles que faziam favores a Jim Jones tinham certos privilégios, como por exemplo, o médico que apoiou a teoria de Jim Jones sobre sexo não revolucionário causar câncer, foi agraciado das atenções amorosas de uma série de garotas.

Os espancamentos eram a forma de punir as infrações menores e a punição era redobrada caso alguém resolvesse dar algum indício de que alguma mulher gostava do reverendo Jim Jones. As crianças eram punidas por ninharias, que levavam surras no local onde ficava o sistema de alto-falantes, para que seus gritos pudessem ser ouvidos por todos da cidade.
Em meados de 1978, a paranoia de Jim Jones começou a ficar assustadoramente profunda devido a uma droga farmacêutica da qual ele estava fazendo uso. Seus três ídolos (Martin Luther King, John F. Kennedy e Malcolm X) haviam sido mortos e ele acreditava que havia sito por agentes do governo.

Jim Jones acreditava fielmente na própria paranoia, acreditava em uma conspiração dos EUA contra Jonestown e dizia que havia uma força viajando para Guiana, com a missão de destruí-los. Chegou a encenas falsos ataques à Jonestown, afim de reafirmar toda aquela ameaça a qual alertava seus seguidores, fazendo com que não restassem dúvidas de que realmente estava certo sobre suas suspeitas.

Jim Jones começou a adoecer e todos notaram isso devido a sua voz que estava se tornando cada vez mais irreconhecível e pelas frequentes pausas, que pioravam a cada dia, quando falava ao microfone. Jim Jones justificou isso como sendo erro nos medicamentos aos quais fazia uso, dizendo que havia tomado, por engano, remédios errados que estavam afetando a sua voz.


Escola de Jonestown
 
Sentinela de Jonestown

Jim Jones parecia estar enlouquecendo. Para ele era proibido expressar qualquer desejo de ir embora e se irritava com a separação, considerava aquilo como uma blasfêmia e uma traição contra ele mesmo e contra a sua causa. Sempre que alguém expressava o desejo de ir embora, era denunciado, geralmente por alguém da própria família, e assim começaram a maridos ficarem contra as esposas, pais ficarem contra os filhos e vice-versa. Todos se denunciavam e Jim Jones era rigorosamente respeitado por medo de represálias.

Alguns dos seguidores de Jim Jones conseguiram fugir e conquista a liberdade tão sonhada, vários deles decidiram contar a imprensa sobre os estranhos costumes na suposta utopia de Jonestown. Eles falaram sobre a forma como eram forçados a realizar trabalhos físicos em condições desumanas, que foram praticamente mantidos como escravos nos campos de plantações, que os infratores eram humilhados publicamente, que Jim Jones não aceitava abandonos e confiscou passaporte e documentos de seus membros, assim era quase impossível que alguém fugisse da comunidade.

Preocupados com o que estava acontecendo em Jonestown e com o motivo pelo qual não recebiam nenhum tipo de informação de seus familiares, as pessoas que foram deixadas para trás por aquelas que optaram por seguir Jim Jones começaram a manifestar uma investigação contra o Templo, a fim de saber os motivos por trás do isolamento. E assim foi criado um grupo de apoio para as famílias afetadas, com a intenção de desvendar as verdades sobre o Templo do Povo.

Descobriu-se que Jim Jones tinha uma fortuna avaliada em 10 milhões de dólares, que era dono de muitas armas ilegais, fruto de importações ilegais e que havia vigia armada em Jonestown. Preocupado por não saber se as pessoas realmente permaneceram lá por vontade própria e sobre preocupação dos familiares que não recebiam notícias das pessoas que foram viver lá, o congressista Leo Ryan organizou uma comitiva para ir à Jonestown saber o que estava acontecendo.


A ida de Leo Ryan à Jonestown

“Homage of unknown, origin of Mr. Jones
Of the final praise to the populated grave”
(Trecho da Música “Carnage In The Temple Of Damned” – Deicide)

A ida de Ryan para Jonestown era a concretização de toda a paranoia de Jim Jones, como se realmente estivessem em perigo e aquele significaria o ponto inicial para a destruição de sua utopia. Porém, Jim Jones não outra escolha a não ser permitir a visita de Ryan à Jonestown. Impôs que a visita só seria permitida se a imprensa ficasse fora disso, porém Ryan ignorou a condição.

Ryan organizando uma comitiva com quatro membros do Comitê das Famílias Afetadas, jornalistas, fotógrafos de jornais de San Francisco e a equipe de televisão NBC. Se Jim Jones impedisse a comitiva de entrar, Ryan ameaçaria filmar o local e apresentar na NBC, toda a América veria pela televisão e o congresso iniciaria uma investigação completa. Antes de embarcar, Ryan revisou seu testamento, não que ele acreditasse que algo de ruim iria acontecer, mas achou melhor fazê-lo só por precaução.

No dia 17 de Setembro de 1978, Ryan foi recepcionado pelos membros do Templo do Povo, moradores de Jonestown, com uma maravilhosa festa preenchida por música, flores e pessoas sorridentes e todos estavam animados e vibrantes. As ordens expressas de Jim Jones para seus membros era a de que eles fossem sorridentes e amigáveis. O jantar foi servido às 8hrs e logo após a banda de Jonestown começou a tocar.


Congressista Leo Ryan

A impressão que Ryan teve é a de que as pessoas realmente estavam felizes por estarem ali, que aquela era uma comunidade acolhedora e era um bom lugar para se viver. Ele acreditou que as pessoas não tinham vontade alguma de abandonar o local, “Pelo que tenho visto, há muitas pessoas que pensam que é a melhor coisa que aconteceu na vida deles.”, disse Ryan em seu discurso que foi fervorosamente aplaudido.

Jim Jones havia ameaçado drogar seus seguidores caso alguém se atrevesse a falar com a comitiva de Ryan, ninguém queria que isso lhe acontecesse, principalmente aqueles que já viram acontecer. Ainda assim, duas pessoas conseguiram entregar uma nota a Don Harris (repórter do NBC que acompanhou a comitiva), que as entregou para Ryan. Nas notas as pessoas falavam sobre o desejo de ir embora e a impossibilidade de fazê-lo.

Quando questionado sobre o conteúdo do bilhete, Jim Jones disse que as pessoas eram livres para abandonarem Jonestown no momento em que bem entendesse, mas que não o faziam porque queriam ficar. Disse que a pessoa que entregou o bilhete desejava ir embora e abandonar o filho em Jonestown, que só estava buscando publicidade e que ele não gostava de pessoas daquele jeito, ironizando sobre o que a comitiva publicaria sobre sua comunidade.

Na manhã do dia seguinte, nove membros decidiram tentar fugir de Jonestown pela floresta. Os guardas do templo foram orientados a sair em busca dos fugitivos e, aproveitando a ausência de fiscalização, alguns jornalistas começaram a explorar a colônia e encontraram um galpão cheio de pessoas famintas e amontoadas em camas de madeira.

Paralelo a isso, Don Harris fazia uma entrevista com Jim Jones diante das câmeras. Jim Jones negou haver qualquer proibição sexual Jonestown e que aquilo tudo era uma grande besteira. “Já nasceram mais de trinta criaturas desde o verão de 1977.”. Jim Jones se surpreendeu quando o jornalista perguntou sobre o filho que ele teve com uma das seguidoras ao qual não impediu a mãe de levá-lo, sobre o motivo pelo qual os seguranças estavam armados e porque quem desejava deixar a comunidade era ameaçado.

Quando a comitiva preparava-se para ir embora, um membro do Templo do Povo havia dito que estava sendo feita de prisioneira lá e pediu para que a levassem pra casa. Quando tomaram conhecimento de que a mulher iria embora com a comitiva, vinte outros membros aproveitaram a oportunidade para manifestas o desejo que tinham de ir embora e partir com o grupo.

Jim Jones entrou em desespero e ficou histérico. Ele dizia que as pessoas não poderiam ir embora, “Vocês são o meu povo. Por que querem ir embora? Eu sacrifiquei a minha vida para meu povo!”. Um membro do templo atacou Ryan com uma faca, ferindo-o no braço e esbravejando “Seu filho da puta, você irá morrer.”.

Vários dos membros se organizaram para deixar Jonestown e embarcar em um avião com a comitiva. Ryan garantiu a Jim Jones que estava tudo bem e que nenhuma ação seria tomada contra ele. No aeroporto, dois aviões esperavam por eles. Alguns desertores foram no primeiro avião enquanto a comitiva preferiu esperar pelo segundo e, então, o primeiro avião decolou.

Jim Jones não pretendia deixar que o grupo partisse. O plano era que o “Esquadrão da Morte”, como era chamado o esquema de segurança de Jonestown comandado por seus filhos (Jim Jones Jr e John Jones), mataria o piloto do avião durante o voo e cairia com o avião na selva matando os componentes da comitiva e todos os passageiros traidores do movimento de Jim Stone.

Porém algo deu errado e o Esquadrão da Morte chegou numa caminhonete, bloqueando a passagem do outro avião, com cerca de vinte homens armados que atacaram as pessoas que ali estavam. Ryan e mais cinco pessoas morreram nesse ataque onde os homens armados atiraram contra suas vítimas a queima roupa. Apenas três pessoas sobreviveram a esse ataque.


Corpos das vítimas do ataque no aeroporto

Os moradores de Jonestown, membros do Templo do Povo, foram convocados pelo reverendo Jim Jones reunião emergencial no pavilhão, ele tinha que lhes dar uma má notícia. Disse que a Guarda Nacional de Guiana estava atacando Jonestown, que o congressista havia morrido e que todos eles seriam torturados, castrados e assassinados pelos homens da guarda.

Um dos membros havia perguntado se era tarde demais para eles fugirem para a União Soviética, tendo como resposta de Jim Jones que os russos não os receberiam naquele momento, embora tenha enviado dois ajudantes para a Embaixada Soviética com uma maleta contendo meio milhão de dólares, na tentativa, sem sucesso, de comprar a sua fuga. Assim, a equipe médica foi orientada a preparar dois tambores de 150 litros com uma mistura de Kool Aid (suco) sabor uva, cianureto e valium.

Jim Jones havia encontrado uma solução para todos os seus seguidores juntos, o envenenamento. Dizia que seria uma morte rápida e tranquila, para que morressem com dignidade e não sofressem nas mãos da Guarda de Guiana: “Temos de sair daqui, temos de dormir. Se não conseguirmos viver em paz, morreremos em paz! Não é um suicídio coletivo, mas sim um suicídio revolucionário!”.  A princípio as pessoas estavam indo por vontade própria, sem hesitações, elas estavam dispostas a se sacrificarem.


Resto dos materiais usados no envenenamento

A mistura foi administrada primeira às crianças, pelas mãos de suas mães. A congregação estava convencida de que o veneno iria conduzir uma morte rápida e sem sofrimento, mas algumas pessoas começaram a ter convulsões e o pânico tomou conta dos fieis. Jim Jones tentava assegurar a seus seguidores de que não havia dor, somente um sabor amargo.


Tambor com a bebida letal próximo ao corpo das vítimas

Havia seguranças armados cercando todo o pavilhão e algumas pessoas começaram a lutar pela sobrevivência, essas foram capturadas, derrubadas e envenenadas a força, àquelas que se recusavam a beber a combinação fatal, eram envenenadas através de injeções. Jim Jones dizia: “Morram com alguma dignidade, não morram em lágrimas e agonia. A morte é só mais uma passagem para outro plano... Não fiquem assim!”.


 
 
 
 
Vítimas de Jim Jones - Jonestown

Após as pessoas, os guardas se comprometeram a matar todos os animais e um verdadeiro massacre de animais foi realizado, sobrevivendo apenas um cão que se escondeu em uma casa. Eles também mataram o mascote gorila que foi de Jim Jones e em seguida ingeriram o veneno, cumprindo seus deveres. Quando todos já estavam mortos, Jim Jones cometeu suicídio com um tiro na cabeça.


Cadáver de Jim Jones

Após os suicídios, os militares da Guiana recolheram os corpos, colocaram em sacos de polietileno preto e, em seguida, em caixas de metal. O corpo de Jim Jones também foi colocado em uma caixa. 


Caixa metálica transportando os corpos

Os corpos de Ryan e seus companheiros voltaram para os EUA em caixões envolto com a bandeira americana. 

Muitas vítimas foram enterradas no cemitério de Jonestown e nos EUA foi feito um memorial em homenagem às vítimas do massacre.

Cemitério de Jonestown
Memorial em homenagens às vítimas de Jonestown

Cinco sobreviventes escaparam pela selva. Oitenta pessoas, incluindo filhos de Jim Jones, não estavam em Jonestown no dia do massacre. Alguns sobreviventes desejaram ter morrido com Jim Jones, outros voltaram pra suas casas e continuavam a afirmar que o reverendo era um deus e muitos outros continuaram a relatar os abusos que aconteciam no Templo do Povo, relatando o medo de serem eliminados por agentes de Jones que sobreviveram.


"Eu creio em Jim Jones"

Houve algumas teorias em torno do que aconteceu em Jim Jones, especularam que um dos filhos de Jim Jones iniciou os conflitos porque queria dar um fim à família e herdar sozinho toda a herança da família. Algumas pessoas acreditam que um Jim Jones continua vivo e que um sósia morreu em seu lugar, mas nenhuma dessas especulações foi comprovada.

O filho de Jim Jones, Stephan, disse em uma conferência de imprensa que o pai estava louco, mas assumiria o controle da seita e continuaria com os preceitos da mesma. Nos EUA, o restante da seita se dispersou, o Templo em Los Angeles foi fechado por falta de verbas e os demais locais da seita passaram a ter outras utilidades. No início da década de 80, o local onde existia Jonestown foi reocupado por refugiados laocianos.

“Quel est ton dieu, quel est ton but? Cotise, cotise pour la terre promise.
Jim Jones vous a fait crever.”
(Trecho da música “Les Sectes” – Trust)

No dia 28/11/1978, o Fantástico apresentou uma reportagem sobre Jonestown:

O Índice de Maldade

Jim Jones foi classificado no grau 22 do “Índice de Maldade”, programa sobre investigação forense da Discovery Channel, realizado pelo psiquiatra forense Michael Stone, pelo planejamento e execução de quase mil pessoas. Para contar a história de Jim Jones e Jonestown, Michael Stone entrevista um sobrevivente do suicídio coletivo, Tim Carter.

Parte 01 – Seitas Religiosas – Jonestown


Parte 02 – Seitas Religiosas – Jonestown


Parte 03 – Seitas Religiosas – Jonestown


JONESTOWN: The life and death of peoples temple


Documentário sobre Jonestown e o Templo do Povo.

Assista abaixo ao documentário legendado.


Jonestown, Jim Jones e o Templo do Povo foram assunto em diversos filmes e livros, segue abaixo alguns exemplos:

Filme: Guyana - Crime of the Century (1979)

Filme: Guyana Tragedy - The Story of Jim Jones (1980)

Filme: Jonestown - Paradise Lost (2007)

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